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Babel 

Babel é o terceiro filme do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu em parceria com o roteirista Guillermo Arriaga. Os dois primeiros filmes foram Amores Brutos e 21 gramas. Ironicamente, assim como acontece em Babel, hoje eles andam brigados e não estão se entendendo. O filme conta várias histórias que ocorrem em diferentes regiões do planeta. Inicialmente independentes entre si, vão no desenvolvimento da narrativa se estabelecendo intrincados elos, trazendo uma forte impressão de que todos fazemos parte de uma comunidade global que não consegue compreenderem-se e se comunicar uns com os outros. São várias histórias. Um casal de americanos viaja para Marrocos, quando a mulher é atingida por uma bala perdida e o marido, desesperadamente, tenta buscar ajuda em condições muito precárias e vive inusitadas situações de solidariedade na comunidade local. Uma família marroquina tem problemas com lobos que se alimentam de seu rebalho de ovelhas. Uma babá mexicana nos Estados Unidos tenta participar das festas de casamento de seu filho e atravessa a fronteira com as crianças que cuida, pois não consegue uma folga nesse dia. Uma adolescente surda muda no Japão tem um pai viúvo que é procurado pela polícia de Tóquio. No filme são faladas seis línguas: inglês, francês, espanhol, japonês, árabe e berbere (Marrocos). Mas não são as línguas diferentes que impedem o entendimento entre as pessoas.

Babel mostra dois princípios do funcionamento do universo que estão sendo muito pesquisados e cada vez mais confirmados por renomados cientistas no mundo contemporâneo. A primeira afirma que estamos todos intimamente interligados. O que acontece com uma família que está morrendo de fome em alguma região da África de alguma forma atinge a todos os habitantes do planeta. Um problema econômico em um distante país da Ásia interfere no equilíbrio da economia internacional. Há um excelente documentário que explica didaticamente o que a física moderna tem descoberto a respeito dessa configuração sistêmica de um mundo único do qual todos fazemos parte. Trata-se do filme "Quem somos nós" dos diretores Betsy Chasse, Mark Vicente e William Arntz, produzido em 2005 nos Estados Unidos e disponível em DVD. É como se todos compusésssemos um só organismo. Somos células, sangue, ossos e neurônios de um único organismo e se um desses componentes não está bem, a totalidade também não estará.

A segunda é o princípio da entropia, tema que facina o diretor e é abordado também em outros de seus filmes. Trata-se da idéia de que estamos nos encaminhando para o Caos. A forma de organização humana chegou ao seu ápice de desenvolvimento, com suas mais avançadas tecnologias e sistemas sociais, e agora vive sua degeneração e morte. Isso é visivelmente observável nos noticiários sobre o aquecimento global, as desigualdades sociais e inúmeras guerras em curso, a criminalidade, a crise das fontes de energia, a decadência das relações humanas, a miséria, as epidemias e a fome, resultados de uma política social econômica que promove cada vez mais a concentração das riquezas. A partir daí surge uma nova forma de organização. A fase de passagem, no entanto, é sempre muito dramática e dá a sensação de uma morte e destruição eminentes e absolutas.

Em Babel o governo norte americano não compreende a natureza do acidente ocoBabelrrido com a turista de seu país e promove brutalidades a partir disso. O patrãoamericano não compreende a importância da presença de sua empregada mexicana no casamento de seu único filho. A ida para o México com duas crianças americanas causará situações desastrosas e uma série de novas incompreensões e intolerâncias. O pai japonês não compreende a dor de sua filha surda muda e o gesto de solidariedade do investigador. A adolescente japonesa não compreende as dificuldades e a dor de seu pai viúvo em ter que criá-la sozinho e desenvolve comportamentos anti-sociais. O pai marroquino não compreende as atitudes de seus dois filhos e deixa de orientá-los em questões fundamentais sobre o porte de arma. Fazemos parte de uma comunidade global cujo grande desafio hoje é a convivência pacífica e a compreensão e respeito mútuos nas diversidades culturais e étnicas. E não temos conseguido responder satisfatoriamente a esse desafio.

Há, felizmente a luz da esperança. Há a perspectiva de algo novo que ainda está por vir depois de todo o sofrimento do caos e Iñarritu mostra isso de maneira muito poética. Mas aí é melhor ver o filme.

Referências

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Círculo do Livro, 1986.
CAPRA, Fritjof. O tao da física. São Paulo: Cultrix, 1983.
ORICCHIO, Luiz Zanin. Entre a dor e a esperança. O Estado de São Paulo, 19/01/2007
 

Por : Carlos Aguena - "Da equipe de redatores Palcoetv" 
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br

Carlos Artur Aguena: Psicólogo Clínico com especialização em Jung e Técnicas Corporais pelo Instituto Sedes Sapientiae

 

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