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O Segredo de Brokeback Mountain

Estado americano de Wyoming, verão de 1963. O filme Brokeback Montain nos conta a história de dois homens, Ennis Del Mar e Jack Twist, que, por uma casualidade, se encontram em um trabalho temporário bastante árduo e solitário de pastorear um grande rebanho de ovelhas em uma montanha isolada. Ennis Del Mar é um jovem órfão, reservado e Jack Twist é o oposto: brincalhão e expansivo. Inusitadamente eles se apaixonam.

Brokeback Mountain

Escrito originalmente por Annie Proulx e adaptado para o cinema por Ang Lee, esse filme de grande sucesso nos remete a um passado muito recente da condição masculina em que o homem era absolutamente proibido de qualquer expressão de sua emoção e sensibilidade. A identidade masculina era obrigatoriamente construída como uma fortaleza impenetrável de virilidade e destemor, quando então cabia a ele ser o protetor e pai de família e. profissional bem sucedido, dentro dos valores culturais e sociais vigentes, ou mesmo na área da transgressão como criminosos cruéis sem medo de nada e extremamente valentes e audazes.

No entanto a sensibilidade é um componente constituinte fundamental da psique, quer entre mulheres ou homens, sendo impossível negá-la ou reprimi-la. Da mesma forma o desejo de conquistas, a força, o ímpeto e o arrojamento que são caracerísticas tradicionalmente masculinas também constituem a psique de ambos os gêneros. Uma sociedade machista que oprime a plena realização das mulheres e nega a expressão sensível dos homens causa então seus danos a todos.

Este é um passado ainda muito recente e talvez ainda presente. Respiramos hoje ares mais liberais em que já é possível as mulheres almejarem altos cargos gerenciais e os homens chorarem suas dores publicamente. Mas talvez ainda nem tanto.

Brokeback MountainHouve, então, uma época em que a nós era destinado unicamente o papel de nosso gênero, apesar da nossa natureza humana ser fundamentalmente andrógena. Nesse sentido, as identidades sexuais eram puras, ou seja, aos homens cabia apresentar características exclusivamente masculinas e às mulheres femininas. E aos homossexuais eram destinados a marginalidade e a condição de transgressores. Apresentações híbridas e pouco definidas como a que encontramos no filme, em que dois homens com comportamentos explicitamente masculinos se relacionam amorosamente são inconcebíveis.

Ang Lee, diretor desse filme, conta essa história com grande sobriedade e sensibilidade em que a questão homossexual é secundária e principalmente simbólica e provocativa para quem ainda pensa cartesianamente as relações humanas. O que na verdade interessa nessa história de amor é a possibilidade de um encontro por inteiro, onde as máscaras sociais podem ser despidas revelando-se a natureza original humana e em que no silêncio das montanhas ouve-se as batidas do coração e ele é compreendido. O amor entre eles de forma alguma os tornaram menos homens.

E assim eles inventaram uma situação clandestina de viverem sua integridade, quando não era possível com suas companheiras, pois elas também eram parciais. Alma Beers Del Mar, esposa de Ennis presencia o reencontro de seu marido com o amigo, quando então trocam tórridos beijos e, em segredo e silenciosamente, sofre por um longo tempo a traição de seu amor. Lureen Newsome Twist, esposa de Jack, perde-se em valores sociais frívolos de status quo, papel perfeitamente aceitável para uma mulher. Em tempos de moralismos e fortes preconceitos, quando a instituição casamento era algo inviolável, quando os valores machistas eram prioritários, não restava muito para mulheres a não ser a doce e quieta subserviência de serem sombras de seus maridos.

No mistério das pescarias entre dois grandes amigos, suas almas se encontraram em sua sensibilidade, sexualidade e afeto, enquanto suas mulheres sofriam silenciosamente pela traição e pelo vazio de suas existências. Numa época em que homens eram apenas homens e mulheres eram apenas mulheres.

Brokeback Mountain

Bibliografia

Brockeback Mountain: o favorito na corrida do Oscar.In: globo.com.

BYINGTON, Carlos.
A alma masculina e a função estruturante da sensibilidade: um estudo da psicologia simbólica junguiana. Palestra proferida no VI Encontro Jung e Corpo, São Paulo, Institutto Sedes Sapientiae, outubro de 2005.

SINGER, June
Adroginia: rumo a uma nova teoria da sexualidade. São Paulo: Cultrix, 1995..

Carlos Artur Aguena é psicólogo clínico (CRP: 06/64106) e psicólogo junguiano
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br

 

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