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O CHEIRO DO RALO

O cheiro do ralo é a adaptação para o cinema do primeiro livro escrito por Lourenço Mutarelli, autor premiado de história em quadrinhos, premiado em vários festivais e feito heroicamente pelos seus realizadores com muito pouco recursos financeiros.


Conta a história de Lourenço, proprietário de uma loja que comercializa objetos usados, em um bairro pobre de São Paulo. Por causa de seu trabalho, Lourenço conhece muitas pessoas que aparecem em sua loja para vender algum objeto. Essas pessoas vem sempre em uma condição de penúria. Vem obrigadas a se desfazerem de algum bem, que muitas vezes são preciosidades que lhes lembram pessoas queridas ou situações importantes de seu passado, para resolverem suas dificuldades financeiras. Lourenço não pode se compadecer ou se envolver afetivamente com qualquer uma delas, pois se o fizer, não conseguirá ter o devido distanciamento e frieza para negociar um valor baixo na compra e garantir boa margem de lucro. Seus fornecedores são reconhecidos por ele completamente destituídos de qualquer humanidade, eles simplesmente são proprietários de futuras mercadorias para sua loja.


Lourenço, como é muito comum em práticas mercantis e urbanas, também se desumaniza e se transforma em mais um, como todos os indivíduos que vivem anônimos em grandes cidades. Não há laços de amizade e os dramas e sofrimentos de cada um são vividos na solidão e no silêncio de suas moradias miseráveis e de seus pensamentos.


Lourenço escolhe não se casar com sua noiva porque não tem qualquer sentimento por ela. Ele, no entanto, ama a bunda da funcionária de um boteco que frequenta. Fica aqui em destaque: ele ama a bunda da garota, não a garota. Em sua narrativa em off, ele comenta que esse boteco serve uma comida horrível e às vezes ele tem dor de estômago. Mesmo assim, todos os dias ele come um sanduíche qualquer e espera ela se virar para poder deleitar-se com seu objeto de desejo. Ele sonha um dia poder ver a bunda da garota do boteco.


Lourenço tem um ralo no banheiro próximo a sala onde ele realiza seu comércio que exala um cheiro fétido que empesteia o ambiente. Tem a preocupação de falar a todos seus fornecedores que esse cheiro vem do banheiro para que ninguém pense que vem dele mesmo. Chega a um ponto que o incomoda tanto que ele tenta resolver o problema chamando alguns encanadores. Eles, no entanto, lhe cobram um valor que está acima do que estaria disposto a pagar. Lourenço entope o ralo de cimento e piora a situação.


Como Lourenço, muitas vezes os moradores de regiões urbanas, perdem a identidade humana e transformam-se em coisas muito esquisitas. Tornam-se proprietários de objetos que podem gerar algum lucro ou possuidoras de bundas muito atraentes, mas são tristemente destituídos de qualquer sentimento ou valor mais humano. Ver as pessoas e a si mesmo como coisas pode ser uma forma de suportar o quanto que a sociedade contemporânea mercantilizou a vida e os relacionamentos. Fez da felicidade um objeto de consumo condicionado a aquisição do carro último modelo ou do físico perfeito sem gorduras e celulite.


Mas todas as pessoas tem um desejo e uma vocação inata de evoluírem serem verdadeiramente felizes. E, definitivamente, felicidade não tem a ver com poder de consumo e impessoalidade. Felicidade está relacionado com a experiência de viver a sua própria humanidade, que implica em valores genuínos de fraternidade, afeto e respeito à dor e aos sentimentos próprios e do outro.


Lourenço sofre sem perceber, como todos aqueles que tentam matar o que há de dolorido em si, mas que também é a sua melhor parte. Há um vazio e uma insatisfação que se disfarçam em indiferença. Isso fede porque está escondido e negligenciado, tal qual um ralo fedorento que exige que se quebre todo o chão do banheiro para parar de exalar o mal cheiro. E pode ser muito perigoso se insistirmos em negar. Prestem atenção ao final do filme.

Referências:

Site: www.mutarelli.com.br
ZWEIG, Connie (org.); ABRAMS, Jeremiah (org.).
Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 1991.

Por : Carlos Aguena - "Da equipe de redatores Palcoetv" 
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br

Carlos Artur Aguena: Psicólogo Clínico com especialização em Jung e Técnicas Corporais pelo Instituto Sedes Sapientiae

 

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