Deita Comigo
Vivemos a era das compulsividades. Somos viciados em comida, regimes,
trabalho, sexo, academia, religião, álcool, drogas, conhecimento
intelectual, relacionamentos. Por aí vai uma extensa lista de atividades que nos distraem de nós mesmos e de nossas questões mais profundas e
existenciais que nos fazem sofrer. Livros de auto-ajuda e grupos anônimos proliferam, tentando apresentar uma vida mais cor-de-rosa e acolhedora e nos eximir de incertezas, angústias e perdas que no final são inevitáveis. O preço a ser pago por tantas distrações e disfarces é a superficialidade e o vazio existencial. A vida parece não fazer
sentido e não há diversão que dê conta de nos afastar dessa estado. Não é
a toa que hoje há também cada vez mais deprimidos.
As compulsividades colocam no comando nossos aspectos mais primitivos e
instintuais e, em níveis mais patológicos, podem comprometer seriamente
nossas vidas. Convivência familiar, compromissos de trabalho,
relacionamentos sociais ou cuidados básicos com a saúde podem ir para o
espaço quando, incontroladamente, a compulsão impera. Tragicamente,
algumas compulsões são até muito valorizadas na sociedade, como por
exemplo o trabalho e, em algumas situações, o sexo. No tarot, é a carta
da roda da fortuna onde um macaco com a coroa reina no lugar do
imperador. O imperador soberano precisa urgentemente recuperar o seu
trono usurpado, pois nessa condição seu império corre sérios riscos de
cair no mais absoluto caos.
O filme Deita Comigo do diretor jamaicano Clement Virgo conta a
história de Lelia, uma jovem mulher obcecada por sexo. Ela se
masturba em frente a televisão vendo filmes pornográficos e sai à noite
em busca de parceiros ocasionais. É significativo ver um personagem feminino com comportamentos sexuais muito parecidos com os masculinos.
Lelia é uma caçadora e domina no ato sexual. Sinal dos novos tempos.
Em uma de suas caçadas, Lelia conhece David, um jovem artista com quem
consegue grandes performances na cama. David também é um atleta no sexo
e encontra em Lelia sua parceira perfeita.
Lelia só sabe se relacionar sexualmente com seus parceiros. Não há
outra forma de encontro possível para ela. Ela não tem um bom
relacionamento com seus pais. David namorava uma garota antes de Lelia e
cuida de seu pai inválido de maneira extremamente amorosa.
Tudo vai indo muito bem nesse encontro perfeito até que algo acontece e
Lelia se dá conta que ela e David não são apenas corpos com zonas
erógenas e que a vida não se reduz ao deleite e a satisfação dos
instintos.
Algo sai do controle. A vida coloca situações de fragilidade
e vulnerabilidade que nos tira a ilusão de que tudo pode se resumir a
escapismos. Nessa hora não há distrações que possam anestesiar a dor e
Leslie perde o chão. Ela se dá conta de sua condição humana.
Em suas buscas noturnas de satisfação de seu desejo, Leslie conhece
David e, inadvertidamente, encontra a qualidade humana dos sentimentos e
afetos em si mesma e em seu parceiro. Aí pode estar uma chave
libertadora do aprisionamento dos vícios tão desesperadamente buscada
pelos compulsivos.
É possível ver esse filme e se deleitar unicamente com as belas cenas
de sexo, mantendo-se no padrão de conduta da personagem principal. Ou
então perceber que a vida oferece saídas.
Por : Carlos Aguena - "Da equipe de
redatores Palcoetv"
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br
Carlos Artur Aguena: Psicólogo Clínico com especialização em Jung e Técnicas Corporais
pelo Instituto Sedes Sapientiae |