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Paulo César, um garoto de 9 anos da periferia de São Paulo vive apenas
com a mãe e não conhece o pai. Sabe apenas que ele é motorista de ônibus. Em sua enorme vontade de conhecer seu pai, Paulo César
freqüenta assiduamente várias linhas de ônibus e a garagem próxima a
sua casa, tanto que acaba fazendo amizade com alguns motoristas. Um
deles, por brincadeira, ensina o menino alguns procedimentos
fundamentais na direção do veículo. Paulo César, muito esperto e sempre
bastante atento nas manobras executadas pelos motoristas na direção,
acaba por aprender a dirigir. Um dia, ousadamente, aproveita a distração
de um funcionário da companhia de ônibus e rouba o veículo. O menino
consegue dirigir impunemente pela cidade por algumas horas, quando acaba
sendo pego e passa um período na antiga FEBEM. Depois que sai da
instituição, Paulo Cesar consegue repetir sua proeza: rouba novamente um ônibus e dirige por algum tempo. Essa
história aconteceu de fato e foi retratado em um documentário chamado
*O Menino e o Bumba*, exibido na última edição do Festival *É Tudo
Verdade* de 2008.
Essa história inspira a construção de um dos personagens do filme
*Linha de Passe*, de Walter Salles e Daniela Thomas. Trata-se da
história de uma família pobre constituída por uma mãe solteira e seus
quatro filhos. Cleusa, a mãe, trabalha como empregada doméstica e está
grávida. Dênis, o mais velho, trabalha de moto boy e já tem um filho.
Dinho é frentista e evangélico fervoroso. Dario, prestes a completar 18
anos, está na idade limite para conseguir realizar seu sonho de ser
jogador de futebol. E finalmente, Reginaldo, o mais novo e único negro
entre os irmãos, busca insistentemente conhecer seu pai biológico que
sabe que é motorista de ônibus. Possivelmente cada um dos quatro irmãos
possuem pais diferentes. Com "Linha de Passe", o diretor retoma o
tema da busca do pai ausente e desconhecido, 10 anos após ter dirigido "Central do Brasil", comovente história do menino Josué que perde
sua mãe em um acidente
de carro e fica amigo de uma trambiqueira, vivida por Fernanda
Montenegro, na longa jornada para encontrar seu pai.
Em uma entrevista na ocasião do lançamento do filme, Walter Salles
comenta o quanto a cultura e o povo brasileiro são marcados pela
ausência do pai, começando pelo trágico antecedente de país
colonizado em que o pai português foi meramente um explorador das
riquezas aqui encontradas. Ao longo de quatro séculos nunca houve
qualquer preocupação paternal em se promover o desenvolvimento econômico
ou políticas sociais no Brasil. O único interesse do governo português
sempre foi o enriquecimento próprio, às custas da exploração do que
encontravam e produziam em terras brasileiras.
Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro clássico, *Raízes do
Brasil*, fala algo muito semelhante. Em linhas gerais, o
brasileiro, filho bastardo do colonizador branco português e de uma mãe
violentada índia ou negra, foi obrigado, por uma questão de
sobrevivência, a desenvolver valores e comportamentos para conseguir
privilégios e regalias de seu senhor ou patrão. Esmerou-se em ser
cordial, sedutor e bajulador para ter uma condição de vida um pouco
melhor. É importante destacar, no entanto, de acordo com o autor, que
esse tipo de atitude de ir atrás de privilégios e não de direitos é algo
que foi aprendido com o português e não com o negro ou índio.
Expedientes como protecionismos, apadrinhamento e corrupção são oriundos
da informalidade da cultura de Portugal que ingressou prematuramente em
um processo de urbanização e constituição de grandes cidades, pelo
desenvolvimento do comércio.
A convivência e o amor paternos podem promover a necessária
consolidação de leis e regras internas, fundamentais para que um
indivíduo possa conviver saudavelmente em grupos sociais. Regra geral, é
com a autoridade do pai que aprendemos o que é correto e o que não é, o
que está de acordo e o que não está com as regras sociais e o valor que
isso tem. Uma criança, a princípio, apenas obedece o pai quando ele diz
que não é correto roubar o brinquedo de um colega. Ao longo de seu
desenvolvimento, no entanto, ele pode construir internamente o conceito
de justiça e direito e entende então, o quanto é importante o respeito
pelo seu próximo. A ética, dessa forma, passa a ser um valor intrínseco,
e ele escolhe não roubar, não por medo da punição, mas por uma questão
de valor.
Arquetipicamente, é essa a grande lição que aprendemos com nosso pai. O pai ensina a disciplina, a conduta para convivência social, a luta e a
lei. O aprendizado com a mãe está mais relacionado com o amor
incondicional e com a capacidade de doação. A ausência dos limites
paternos e o excesso do zelo materno podem levar a constituição de
indivíduos sem o menor controle de sua impulsividade e desejos,
capazes de fazer qualquer coisa para satisfazer as próprias vontades.*Linha de Passe* mostra a história de quatro irmãos que crescem sem
a presença de um pai. Nenhum deles tem muito claro a necessidade da lei.
A possibilidade de pequenas corrupções ou uma rápida ascensão social
para fugir de um destino miserável são tentadores. Não são jovens com má
índole, apenas muito pobres e com mínimas chances de saída para uma
condição melhor. O retrato dessa situação no filme é implacavelmente
realista. Há muitos momentos que temos a impressão de estarmos
assistindo a um documentário. Pequenos furtos bem sucedidos, o sonho de
se transformar em um famoso jogador de futebol ou o fervor da
religiosidade são saídas reais para esse impasse e aparecem retratadas
na história dessa família. No entanto, não convencem como alternativas
eficientes.
A ausência do pai pode ser trágica, na medida em que essa é a origem da
grande maioria daqueles que acabam por ficar à margem da sociedade, por
inadequação e impossibilidade de se integrar e progredir. São eles os
desempregados crônicos sem capacitação profissional, os bandidos e os
loucos. Adolescentes que matam seus próprios pais para conseguir ficar
com a herança ou o pai que, por impulso, atira a própria filha pela
janela, são comportamentos de pessoas que tem a noção de ética e justiça
muito deficientes dentro de si.
E as histórias dos quatro irmãos também podem terminar muito mal.
Qual é, regra geral, o destino de um moto boy pai de um bebê, um garoto
evangélico que trabalha em um posto de gasolina, um adolescente
desempregado que não consegue uma vaga em um time de futebol ou um
menino pobre e negro que vive passeando em ônibus, todos sem qualquer
qualificação profissional?
Talvez não necessariamente o desfecho seja negativo. Walter Salles,
assim como em "Central do Brasil", parece propor em "Linha de
Passe" uma saída para a falta da paternidade na cultura e famílias
brasileiras. Não temos um pai, mas temos irmãos. O conceito de
cidadania, nesse sentido, está muito próximo ao conceito de fraternidade, na medida em que nos percebemos não solitários na busca de
saídas para as desigualdades e injustiças sociais e culturais.
Precisamos da efetivação de direitos como cidadãos e não de eventuais
privilégios de filhos bastardos. Ao longo da história do Brasil, é
possível encontrar várias experiências de fraternidade, em tentativas
de revoluções, na resistência à ditadura militar, na mobilização frente às enchentes e à fome endêmica no Nordeste. E, em um trabalho
fraterno de equipe, quem sabe não fazemos um gol?
Referências:
BYINGON, Carlos. Dimensões simbólicas da personalidade. São Paulo:
Ática, 1998.
É TUDO VERDADE: Festival Internacional de Documentários.
http://www.itsalltrue.com.br/2009/index.asp
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 3. ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 1997.
LINHA DE PASSE. www.paramountpictures.com.br/linhadepasse/index.html -
3k -
SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 21. ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 2007.
Por : Carlos Aguena - "Da equipe de
redatores Palcoetv"
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br
Carlos Artur Aguena: Psicólogo Clínico com especialização em Jung e Técnicas Corporais
pelo Instituto Sedes Sapientiae |
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