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O Ciclista
de Mohsen Makhmalbaf, 1987 / Irã

Por: Renato Marques - da equipe Palcoetv

O cinema iraniano se tornou notável na década de 1990 com seus filmes de imenso valor humanista, rodados com inúmeras restrições técnicas e sempre reveladores das mazelas sociais do país. O Ciclista, filme de Mohsen Makhmalbaf, um dos diretores mais aclamados desta fase do cinema iraniano, é um exemplar desse cinema e precede a década em que o Irã se tornou internacionalmente reconhecido no universo cinematográfico.

Filmado em 1987, o longa retrata a difícil situação de Nasim, afegão desempregado que vive no Irã e tem a mulher doente à beira da morte. Os custos para o tratamento da esposa são altos demais para Nasim. Para salvá-la, ele parte em busca de um emprego, mas não o encontra. Em uma atitude desesperada pensa no suicídio, mas é impedido pelo filho, Jomeh. A alternativa encontrada por Nasim é aceitar uma proposta de um empresário – pedalar uma bicicleta ininterruptamente por sete dias para receber em troca o dinheiro, providencial para a sobrevivência da esposa. Ele, que fora campeão de ciclismo em seu país, topa tal desafio e inicia uma jornada de persistência.

O enredo simples é envolto pela situação do Irã à época, sobretudo do imigrante afegão, e expõe os estigmas de uma nação empobrecida e fragilizada. O desemprego e a miséria são destacados e em Nasim tomam forma aflitivamente. O protagonista do filme, assim como os demais afegãos, tem seu trabalhado desvalorizado e é relegado a subempregos. Ao procurar o hospital que pode curar sua mulher, a observa sufocante e ouve com tristeza os valores de sua internação – 1000 tomans a diária, 500 com desconto, 300 tomans o serviço, com os custos de exames e operação sendo cobrados separadamente. Ao procurar emprego, ele e outros tantos imigrantes se amontoam e disputam um trabalho que lhes pagará 50 tomans por dia. A condição deplorável do imigrante no Irã leva-o a tentativa tresloucada do suicídio e, em seguida, a se submeter aos caprichos de um empresário que explora sua indigência para ganhar dinheiro.

Ao iniciar sua trajetória, Nasim é acompanhado de perto pelo filho; um árbitro, que deve observar se o ciclista não está violando nenhuma regra; uma equipe de médicos e vários espectadores e curiosos. A força de vontade de Nasim cativa o público e inspira aos velhos e leprosos que o assistem e que, assim como ele, passam por muitas dificuldades. Além do pedalar incessante como metáfora da persistência humana, a jornada do ciclista também guarda críticas aos que detêm o poder no país. A tentativa de suborno do governo, que diz a Jomeh para oferecer dinheiro ao seu pai para que desista da prova é uma forma de evitar um fortalecimento do imigrante e do pobre no país.

Com uma história comovente sobre os limites morais e físicos e o desespero do ser humano, e utilizando-se de temas circulares (a arena de apresentação do espetáculo com a motocicleta, as rodas, o poço, o pedalar em círculos) para reforçar a representação do ciclo da existência, O Ciclista exibe de maneira singela, porém com profunda complexidade sócio-cultural um panorama das camadas mais desprivilegiadas de seu país. Evidenciando a contundência da miséria e do desemprego no Irã, Makhmalbaf expõe e critica a penúria dos menos favorecidos e encerra o filme com uma perspectiva incerta para estes, como sugere a cena final - ao término da prova, um jornalista pergunta a Nasim "o que é felicidade para você?", o ciclista nada responde, apenas continua a pedalar.

Uma cena do filme:
www.youtube.com/watch?v=HWnlgQ2_Y0M

O filme completo:
http://video.google.com/videoplay?docid=-4998043167162411310

 

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