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O Pai Ó
É bastante perceptível o cuidado e a preocupação em se conquistar o mercado externo na produção atual de alguns filmes, novelas e mini-séries da Rede Globo, na proliferação, às vezes abusiva, dos encantos ditos nacionais da brasilidade. Há uma exuberância de paisagens tropicais, belíssimas mulheres, muita sensualidade, situações cotidianas engraçadas, afeto caloroso, brigas estilo barraco, traições e passionalidade. Alguns estud iosos da cultura brasileira ressaltam o quanto ainda tentamos corresponder ao imaginário dos europeus que fantasiavam as terras desconhecidas das Américas como um lugar de beleza e abundância paradisíacas, em que era possível ser totalmente livre no comportamento e na sexualidade. Na verdade, ao longo da nossa triste história de colônia e de país subdesenvolvido, juntamente com nossos demais irmãos latino-americanos, esse papel de povo hospitaleiro, divertido e muito sexualizado foi estratégia de sobrevivência e tentativa de se conquistar alguma vantagem ou respeito, em meio a um contexto político econômico sempre cruel de exploração e violação de direitos. Somos originalmente um povo constituído de uma minoria européia colonizadora, interessada apenas em seu próprio enriquecimento, e uma grande maioria de negros escravos e índios desapropriados de sua cultura e tradição.
Gilberto Freyre em seu livro Casa Grande e Senzala homenageia as negras escravas em sua impressionante capacidade de amor, quando descreve que muitas delas amamentaram filhos de suas senhoras, deixando de amamentar seus próprios filhos e, mesmo assim conseguiram desenvolver afeto a essas crianças brancas. O autor não reflete, no entanto, o quanto custou para essas mulheres fazerem isso, que era absoluta condição para se manterem vivas.
Mostrar uma cara bonita, gestos engraçados e atitudes cordiais perante o senhor português que lhe sugava todo o vigor de seus corpos e a sua força de vida, teve um preço alto. Foi preciso engolir a seco toda a dor dos castigos, da miséria, das doenças, dos desrespeitos, das humilhações e do total e mais absoluto desamparo. O inconsciente coletivo do povo brasileiro tem essa dor pouco reconhecida e nem um pouco cuidada.
A primeira parte do filme "Ó, pai ó", divulgado pela mídia como uma comédia se enquadra brilhantemente na imagem encantadora do Brasil para estrangeiro ver, mesmo quando há situações que mostram explicitamente a grande miséria que os protagonistas dessa história vivem em um cortiço do bairro histórico do pelourinho, em Salvador. Lá estão um simpático aspirante a cantor, um motorista de táxi muito malandro com sua mulher grávida e suas amantes, incluíndo aí um travesti, a proprietária evangélica com seus filhos que tentam levar vantagem em negociações na feira próxima, uma moradora que retorna desiludida da Europa, camelôs e traficantes. É tudo muito divertido, sensual e engraçado, com excelentes músicas e requebros. Estão vivendo os preparativos do carnaval.
Mas nos subterrâneos dessa festa atuam aquilo que foi negado mas não morto. Há cinco séculos vivemos graves injustiças sociais em que sempre poucos se apropriaram da riqueza e das oportunidades, enquanto muitos se mantiveram na mais total miséria e não cidadania. As desigualdades sociais geraram a violência e a criminalidade. O filme aos poucos vai introduzindo esses elementos nesse ambiente aparentemente tão alegre e festivo. A baiana do acarajé repete a todos os seus clientes a notícia do jornal sobre os jovens que viraram presunto na última noite. Em uma conversa pouco amistosa entre dois personagens explode o racismo presente em uma terra de negros. Até chegar em um ponto culminante de um trágico acontecimento que escancara o quanto as coisas estão mal resolvidas.
O povo brasileiro não é tão feliz assim como todos gostaríamos de acreditar.
"Ó pai ó" consegue com grande brilho, talento e humanidade, mostrar os dois lados do Brasil. Somos um povo, a um só tempo, alegres e trágicos.
FREYRE, Gilberto Casa Grande e Senzala. Rio de Janeiro: José Olympio, 1935..
GAMBINI, Roberto. Espelho índio: a formação do povo brasileiro. São Paulo: Axis Mundi, 2000.
ZWEIG, Connie (org.); ABRAMS, Jeremiah (org.). Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 1991.
Uol Cinema. cinema.uol.com.br/
Por : Carlos Aguena - "Da equipe de
redatores Palcoetv"
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br
Carlos Artur Aguena: Psicólogo Clínico com especialização em Jung e Técnicas Corporais
pelo Instituto Sedes Sapientiae |
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