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O Segredo do Grão

Ás margens do Mar Mediterrâneo, na cidade de Sete, no sul da França, vive, em uma pequena comunidade árabe, o recém desempregado Slimane Beiji de 60 anos. Após anos dedicados ao trabalho nas docas, ele é sumariamente dispensado pela idade e resolve realizar o grande sonho de sua vida: abrir um restaurante. Ele compra um barco em péssimo estado que, reformado, abrigará o seu projeto. Lá ele pretende servir um prato típico de sua cultura, fantasticamente preparado pela sua ex-esposa: um cuscuz marroquino, feito a base de peixes e legumes. A empreitada acaba envolvendo toda a comunidade árabe que vive nessa região. Os filhos de seu primeiro casamento se organizam para o preparo e transporte e dos pratos. Alguns deles também cuidam em recepcionar e servir os convidados. A filha de sua atual companheira ajuda-o nas negociações de financiamentos. Amigos de bar se dispõem a tocar na inauguração do restaurante, festa destinada a conquistar patrocínios e a autorização dos órgãos legais da região para a abertura e funcionamento do estabelecimento.

Essa é, em linhas gerais, o tema do filme "O segredo do grão, de Abdellatif Kechiche, grande vencedor do César de 2008, na França. A história de Slimane Beiji envolve uma série de fatores que despertam de imediato uma forte empatia para quem acompanha sua trajetória de luta. Beiji pertence a um grupo étnico minoritário e alvo de preconceito entre a comunidade francesa, que procura manter suas tradições e valores culturais. Ele não se sente derrotado com a injusta demissão bastante desfavorável, quando, já velho, parece não restar muito a fazer na vida. Ele vai atrás da realização de seu sonho.

Uma forte crítica ao cinema e a todas as modalidades de entretenimento, de uma forma geral, é proporcionar canais de escapismo e alienação. Teóricos marxistas diziam do circo que se dá ao povo para que eles se distraiam de sua triste condição de explorados e miseráveis, excluídos na distribuição desigual e injusta das riquezas produzidas na economia.

Woody Allen reflete brilhantemente sobre esse tema em seu filme de 1985, hoje um clássico, "A Rosa Púrpura do Cairo". Nesse filme, Cecilia, vivido por Mia Farrow, é uma garçonete muito pobre que apanha de seu marido. Seu grande prazer na vida é ir ao cinema e, viver através dos filmes, a felicidade, o romance e o glamour de suas histórias. Dessa forma, suas frustrações e sofrimentos são apaziguados e tolerados. Ela não toma nenhuma atitude objetiva perante a exploração de sua mão de obra e o desamor de seu marido agressor.

São muitos os filmes que poderíamos lembrar de personagens em situações muito desfavoráveis que, através de seu heroísmo e sagacidade, superam um destino de derrocada e vencem na vida. Esse percurso é, regra geral, paradigmático para o sucesso dos roteiristas da indústria cinematográfica norte americana. Alguns talvez irão se inspirar nessas histórias para buscar suas próprias vitórias. Outros farão desses filmes uma válvula de escape para sua própria frustração de sonhos abandonados.

No entanto, o que pode acontecer quando a história devolve para nós a responsabilidade da realização do sonho? Em "A Rosa Púrpura do Cairo", a protagonista tem a incrível felicidade de se encontrar pessoalmente com herói do filme que ela viu inúmeras vezes. Ele sai das telas do cinema por causa dela. Em "O segredo do grão", há vários acontecimentos que ameaçam o sucesso da empreitada do herói principal. Há uma bela e comovente citação de "Ladrão de bicicletas", clássico de 1948 do neo-realismo italiano, de Vittorio De Sica, quando adolescentes roubam a moto Slimane Beiji em um momento crucial. Dar certo está por um fio e o diretor magnificamente não nos poupa dessa tensão. Sonhos existem para virarem realidade.

 

Por : Carlos Aguena - "Da equipe de redatores Palcoetv" 
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br

Carlos Artur Aguena: Psicólogo Clínico com especialização em Jung e Técnicas Corporais pelo Instituto Sedes Sapientiae

 

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