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O Tempo que Resta "É o segundo episódio do diretor François Ozon de seu projeto de uma trilogia sobre a morte. O primeiro foi "Sob a Areia", que já esteve em cartaz em São Paulo. Trata-se da história do jovem e belo fotógrafo Romain que descobre estar com um câncer generalizado em fase terminal. Romain é um típico representante de alguém que incorporou plenamente os valores culturais de nossa época. Está muito preocupado com status social, visibilidade e poder, é vaidoso e arrogante e se relaciona mal com as pessoas, não se dá bem com sua irmã e a ofende em uma reunião familiar, além de maltratar seus parceiros de trabalho. A proximidade de uma morte prematura, contudo, arranca-o da superficialidade e banalidade de sua vida, totalmente voltada para a sustentação de uma imagem pública e para os prazeres do mundo. Joga-o abruptamente para as profundezas e para a dor de seu ser mais íntimo. Romain, na verdade, é um solitário, tem um pai de quem gosta muito mas é inacessível. Não tem afinidades com sua mãe e despreza sua irmã pelo estilo de vida banal que, segundo sua visão, ela adotou em sua vida. Rompe com seu namorado desempregado que até então sustentava e com quem morava em seu apartamento. Não tem grandes amigos.
Carl Gustav Jung alerta o quanto a civilização ocidental se esforça em excluir de sua realidade os aspectos dolorosos da existência humana. Vivemos em uma época em que as tristezas são afastadas por antidepressivos, drogas, idas constantes ao shopping e à compulsão ao sexo, entre muitos outros comportamentos de busca do prazer e anestesia da dor. Isso é também bastante visível no desenvolvimento das ciências médicas e da cosmética que, a todo custo, buscam prolongar a vida e a juventude. Não deixando de reconhecer as enormes vantagens das conquistas das modernas tecnologias e da medicina para a melhoria da qualidade de vida e da cura de muitas doenças, o equívoco dessa perspectiva está em sua extrema simplificação e linearidade, em que reduz o processo evolutivo humano a um percurso sem desafios, como se fosse possível ou mesmo desejável uma vida absolutamente feliz e saudável. As eventuais doenças, a nossa eventual feiúra, as perdas e as tristezas são sofrimentos que constituem uma existência, fundamentais no processo evolutivo humano e que hoje tentamos bani-las a todo custo. Os relacionamentos tornam-se superficiais, pois há cada vez menos predisposição para se enfrentar conflitos, desencontros e superar desentendimentos. É a onipotência do ego, revelando-se no orgulho desmedido e no desejo de poder, acreditando-se capaz e no direito de ter total controle nos ciclos de vida e morte.
Romain está prestes a morrer e dessa vez resolve viver plenamente sua morte, sem remédios ou qualquer esperança de cura. E assim ele finalmente encara um profundo mergulho em si mesmo e percebe tudo o que fez de sua vida até então. A lembrança de que um dia vamos morrer ou a experiência efetiva da proximidade da morte redimensiona valores e nos dão a exata medida e importância do que realmente vale a pena em nossas vidas. Há algum local no Oriente em que as pessoas se cumprimentam com a frase: "Não se esqueça de que um dia você vai morrer". Longe de ser um cumprimento tétrico, é um alerta para que cada dia seja vivido plenamente, porque pode ser o último. Romain recebe uma carta de sua irmã que lhe escreve do quanto ela lhe tem carinho e do quanto ela gostaria de se reconciliar com ele. Resolve então ligar para Quando esquecemos que um dia vamos morrer, desperdiçamos nossas vidas com coisas que não tem a menor importância, vaidades, bens materiais, poder e status social. É só imaginar a nossa morte para percebermos que tudo isso que nos esforçamos em conquistar no fundo não tem muito sentido. Amor, relacionamentos verdadeiros, grandes amizades, o por do sol na praia. É isso que vale a pena nessa vida. O resto é pura bobagem.
Referências: SILVEIRA, Nise da. Jung vida e obra. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. Carlos Artur Aguena faz parte da equipe Palcoetv. |
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