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Olga - O Filme
Sinopse

Num dia frio, uma jovem adolescente contempla a neve caindo. Sorri. À sua frente, uma fogueira. Crianças brincam de roda num local próximo a ela. Seu pai a observa a uma certa distância. De repente, num gesto impetuoso, ela salta sobre o fogo dizendo "se doer, eu não vou chorar". Assim começa o filme Olga, de Jayme Monjardim.

No início, a história da jovem e entusiástica militante de origem burguesa arrebatada pelo ideal revolucionário, fria, dura, "com nervos de aço", que rompe com a família e se dispõe a morrer pela causa do proletariado parece igual a de muitas outras que seguiram essa trajetória.

Apesar da fotografia impecável e de uma rápida sucessão de episódios que retratam um pouco da história do partido comunista alemão, a coluna Prestes, a intentona comunista e a ditaduraVargas, entremeadas por cenas de romantismo que incluem uma viagem num transatlântico, em muito semelhantes às do Titanic de James Cameron, o princípio do filme deixa no espectador uma sensação de algo próximo do inverossímil.

Somente quando a protagonista, vivida pela atriz Camila Morgado, é detida e deportada para a prisão na Alemanha é que o drama da personagem adquire força e passamos a compreender o ser humano por detrás da militante.

E talvez seja exatamente este o efeito desejado. O filme muda junto com a personalidade de Olga. Enquanto o ideal revolucionário é pintado com cores de um certo racionalismo, não podemos compreendê-lo em sua dimensão mais ampla. Somente uma Olga transformada pela experiência do amor e da maternidade pode dar-nos a exata noção de porque algumas pessoas comuns e ao mesmo tempo especiais como ela, Prestes, Dna. Leocádia e muitas outras movem montanhas por suas convicções.

A figura da mulher, inicialmente sufocada por um estereótipo de uma militante sem tempo para a "felicidade pessoal", irrompe em toda a sua beleza em cenas como aquela em que Olga proclama à imprensa que vai ser mãe de um filho de Prestes.

Atos aparentemente banais como tecer casaquinhos de crochê para o futuro bebê na prisão humanizam a protagonista que, casualmente, em uma missão determinada pelo partido, passou pelo Brasil e marcou para sempre a história do país.

Num momento em que se decretou o fim das ideologias, Olga é um filme, no mínimo, necessário. Convence sobretudo como documento de uma época ainda não completamente desvendada pelos historiadores. Reacende questões como o porquê da perseguição nazista aos judeus e sugere que a deportação de Olga, em lugar de um desejo de Vargas, pode ter sido fruto de uma desavença pessoal entre Prestes (Caco Ciocler) e Filinto Müller (Floriano Peixoto), chefe de polícia do então presidente. O filme é também um convite ao livro homônimo de Fernando Moraes, que sai enriquecido pelos detalhes fictícios ou não que o roteiro de Rita Buzzar acrescenta à história.

Especialmente comoventes são as cenas vividas na prisão em Berlim, em que Olga permanece com a filha, nos primeiros meses de vida da criança, até que, sem que a mãe saiba, a menina seja entregue aos cuidados da avó e da tia. Anita Leocádia, o nome do bebê, é uma dupla homenagem: a Anita Garibaldi - outra figura histórica do Brasil já retratada por Jayme Monjardim na mini-série global A casa das sete mulheres (2003) - e a Dna. Leocádia, mãe de Prestes, revivida na interpretação magistral de Fernanda Montenegro.

Merece destaque ainda a bravura com que Olga enfrenta seus últimos dias num campo de concentração. Somente então, desde que fora separada de sua filha, na prisão, fica sabendo que ela se encontra a salvo na companhia da avó e da tia. Isso parece enchê-la e novo alento e Olga torna-se capaz de insuflar esperança a suas companheiras de trabalho forçado, dizendo-lhes que se não resistissem nas mínimas coisas, como manter o alojamento limpo, o triunfo nazista seria mais fácil. Isso nos remete a relatos do psicanalista Viktor Frankl. Como estudioso de sobreviventes dos campos de concentração, Frankl diz que só foi possível resistir a tantas atrocidades, dentre as quais optar cotidianamente entre fumar um cigarro e comer um pãozinho, àqueles que tinham a expectativa de sair dali e reencontrar a família, os entes queridos, enfim tinham fé em que aquilo não poderia terminar daquela maneira. Mas Olga não sobreviveu. Era preciso que assim acontecesse para que, exatamente por suas atitudes de resistência, demonstradas em suas cartas à filha e a Prestes até seus últimos dias, ficasse imortalizada como heroína na memória do povo brasileiro. O filme, sem dúvida, cumpre este seu principal papel.

por Andrea

 

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