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Onde os Fracos Não Têm Vez

A existência do mal semprecausou um grande mal estar entre religiosos e pensadores. Afinal, qual a natureza e gênese do mal? Se Deus realmente existe, o que significam tantas tragédias, guerras e injustiças ocorridas ao longo da história da humanidade? Ou Deus não é absolutamente onipotente e onisciente, ou Deus não é tão bom e perfeito assim como já disseram os grandes mestres. Onde os Fracos Não Têm Vez

Sempre houve homens incrivelmente cruéis e destituídos de qualquer traço humano. Matam e cometem as piores atrocidades com a maior tranqüilidade e isentos de culpa, quando tais ações podem promover algum benefício a eles. Esses homens, que não foram poucos, fazem parte da criação de Deus?

Isso sem falar das infindáveis tragédias ao longo da história da humanidade como guerras mundiais, pestes, perseguições políticas, déspotas sanguinários no poder, estupros, suicídios, crimes hediondos e outros acontecimentos que parecem muito distantes de um plano divino regido por um Deus sábio e misericordioso.

O filme "Onde os fracos não têm vez", dirigido por Ethan e Joel Coen, traz uma história perturbadora com essas características.

Na cidade do Texas, década de 80, um traficante de drogas é encontrado morto com uma valise cheia de dinheiro por um caçador, Llewelyn Moss (Joss Brolin). É evidente que algo muito errado ocorreu em um contexto de criminalidade que assumiu proporções assustadoras. Há uma avalanche de cadáveres apodrecendo no deserto da fronteira entre México e Estados Unidos, mortos por uma negociação de heroína mal explicada.

 Onde os Fracos Não Têm VezLlewelyn Moss, no entanto, não se intimida com a série de assassinatos que estão em torno da valise perdida e resolve ficar com o dinheiro, para resolver sua vida e de sua esposa.

Começa então a ser perseguido implacavelmente pelo matador e psicopata Anton Chigurh (Javier Bardem), que vai deixando um rastro de sangue de vítimas assassinadas gratuitamente.

O xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) é escalado para a resolução desse caso. Ele lembra, logo na abertura da história, de um garoto de 19 anos que enviou a cadeira elétrica. Esse garoto dizia que havia cometido um assassinato simplesmente porque queria fazê-lo e, se tivesse uma outra oportunidade, o faria novamente.

Heidegger, um importante filósofo alemão do século passado, afirmava que todo conhecimento humano e religiosidade produzidos até então tem sido uma tentativa infrutífera de apaziguamento dos enormes temores e dificuldade de aceitação do que é a realidade e a condição humana. Essa realidade é trágica e irracional e tudo o que se tem dito a seu respeito no sentido de trazer alguma positividade ou lógica à sua natureza só faz com que o homem se distancie ainda mais de seu verdadeiro entendimento.

Durante muitas décadas o final feliz nas produções cinematográficas foi um paradigma. O mal só podia ser abordado se, ao final, ele é derrotado pelas forças do bem. A realidade, no entanto, tem se apresentado muito mais complexa do que o maniqueísmo dos finais felizes e não é diretamente perceptível uma vitória do bem no fim do túnel.

 Onde os Fracos Não Têm VezO mundo está se revelando cada vez mais complexo e insolúvel, em que todas as teorias humanas não deram contam de explicar minimamente. Talvez o bem seja de fato possível e almejável de se alcançar, mas decididamente isso não é uma tarefa fácil e simples, como mostravam os finais felizes de filmes antigos. Precisamos entender e aceitar melhor os aspectos sombrios da existência humana, pois elas de fato existem.

O mal é impenetrável a qualquer espécie de abordagem do bem. Ele não se rende de forma alguma a qualquer gesto de solidariedade e simpatia. O matador Chigurh, gravemente ferido a uma certa altura da história, parece sentir ódio do menino que tenta lhe oferecer algum tipo de ajuda.

A paisagem é desértica e hostil, há um vazio e um desalento que nega qualquer forma de resolução fácil às questões humanas colocadas. Não há super heróis que com poder de solucionar a complexidade da experiência humana. E também a sua enorme maldade.  Onde os Fracos Não Têm Vez

"Onde os fracos não tem vez" não tem um final feliz que promove uma catarse de alívio frente a um mal tão avassalador e absoluto que apresenta o dinheiro envolvido no tráfico de drogas e todas as mortes ocorridas em seu nome. O xerife Bell lamenta que a sua velhice não trouxe uma compreensão maior e uma aproximação com Deus, como imaginava quando era jovem.

Carl Gustav Jung diz que, como em tudo no Universo, Deus também possui seus aspectos sombrios. Essa afirmação causou a ira de muitos religiosos na época. Será que hoje não é possível compreendermos melhor o que Jung queria dizer?

Por : Carlos Aguena - "Da equipe de redatores Palcoetv" 
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br

Carlos Artur Aguena: Psicólogo Clínico com especialização em Jung e Técnicas Corporais pelo Instituto Sedes Sapientiae

 

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