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SANTIAGO : HÁ PESSOAS QUE SÃO FUNDAMENTAIS EM NOSSA HISTÓRIA.Os documentários já não são mais como antigamente. Aqueles que têm pelo menos quarenta anos e acompanham a produção cinematográfica contemporânea entendem bem essa afirmação. Há bem pouco tempo atrás era uma chatice total os mini-documentários apresentados antes do filme principal no cinema. Quem agüentava o suplício dos filmes do Canal 100 e do Primo Carbonari? Hoje as coisas estão muito diferentes. O gênero documentário está mais atraente, tanto ou mais que a ficção. Perdeu-se a enfadonha e inatingível obrigação de ser um retrato fiel e objetivo da realidade. Ele não é mais didático e pedagógico. Alguns até ousam inventar fatos que nunca aconteceram. O documentário cada vez mais assume a honestidade em declarar explicitamente a subjetividade, a percepção cúmplice, avessa ou parcial de quem o faz perante seu tema. O documentarista já não precisa ter escrúpulos em revelar seus próprios sentimentos e afetos.
Moreira Salles documenta Santiago contando sua história, já velho e aposentado, morando em uma kitinete, rodeado por lembranças, objetos e anotações de sua curiosa trajetória de vida. E documenta também seu fracasso por muitos anos, de não ter conseguido finalizar seu trabalho. O roteiro original, aparentemente uma obra-prima de síntese e estrutura, não dava conta do que ele queria passar de quem foi Santiago. Ficou, dessa forma, o copião com algumas cenas em "off" que revelam muitas atitudes autoritárias de diretor. E ficaram seus sentimentos sem gestalt. Quando a gente olha em retrospecto para nossas próprias histórias, reconhecemos às vezes que há algumas pessoas que foram fundamentais em nossas vidas. Suas presenças e influências nos marcam de tal forma que elas passam a existir dentro de nós, como um fantasma ou um anjo. Elas influenciam nossas escolhas, acertadas ou não, os nossos valores e até a natureza e qualidade de nossos sonhos. E ás vezes não percebemos o quanto elas foram importantes. Negligenciamos o afeto que temos por elas, como se fossem eternas e que temos todo o tempo do mundo para um dia decidirmos fazer algo para elas de verdade. Impressiona o tempo que o cineasta João Moreira Salles demorou para perceber a dimensão e profundidade que o simples mordomo de sua família teve em sua vida e carreira. Foram 13 anos de tentativas infrutíferas de finalizar um documentário sobre esse personagem tão incomum e extraordinário. Para conseguir falar sobre Santiago, nesses 13 anos ficou faltando ele próprio, o autor do filme. Parece que a verdade, conquista maior e mais preciosa de quem faz documentário, só é atingível quando corajosamente é revelada a subjetividade do ser humano que está por detrás das câmeras. Daí então fica tão verdadeiro que a gente passa a gostar de Santiago, sem nunca termos encontrado com ele.
Por : Carlos Aguena - "Da equipe de
redatores Palcoetv" Carlos Artur Aguena: Psicólogo Clínico com especialização em Jung e Técnicas Corporais pelo Instituto Sedes Sapientiae |
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