sobre o palco e tv
seriados
filmes
teatro
fale conosco

 

A vingança dos Siths
Mito e psicologia em Stars Wars

George Lucas, na época em que escrevia os roteiros de sua grande saga de "Guerra nas Estrelas", mantinha intenso contato com o célebre estudioso de mitos e já falecido Joseph Campbell, cuja influência é claramente observável em seus filmes.

Trata-se de um épico grandioso como nos mitos cavalheirescos medievais ou nas histórias heróicas da mitologia grega, em que o herói Luke Skywalker consegue liderar uma luta em que liberta as galáxias do jugo de Darth Vader, representação suprema do mal e do poder autoritário e aprisionante.

Diz Campbell em seu clássico livro O Poder do Mito: "Darth Vader não desenvolveu a própria humanidade. É um robô, um burocrata, vive não nos seus próprios termos, mas nos termos de um sistema imposto. Este é o perigo que hoje enfrentamos como ameaça as nossas vidas. O sistema vai conseguir achatá-lo e negar a sua própria humanidade, ou você conseguirá utilizar-se dele para atingir propósitos humanos? Como se relacionar com o sistema de modo a não o ficar servindo compulsivamente? Não adianta tentar mudá-lo em função das suas concepções ou das minhas. O momento histórico subjacente a ele é grandioso demais para que algo realmente significativo resulte desse tipo de ação. O que é preciso é aprender a viver no tempo que nos coube viver, como verdadeiros seres humanos. Isso é o que vale e o que pode ser feito.Como?Mantendo-se fiel a seus próprios ideais, como Luke Skywalker, rejeitando as exigências impessoais com que o sistema o impressiona".

Sugestivamente, em época de Bush, atentados pelo mundo, denúncias escandalosas de corrupção no Brasil, e após 33 anos da filmagem do quarto episódio que lançou a série de Guerra nas Estrelas, George Lucas finaliza sua grande obra com o terceiro episódio que narra a gênese do mal com o surgimento de Darth Vader: a Vingança de Sith.

Darth Vader, antes de ser o que ele se tornou, era apenas um garoto extraordinariamente talentoso, com grande potencial para se transformar em um valioso guerreiro, um jedi. Durante uma viagem, Qui-Gon Jinn, nobre jedi, conhece-o aos nove anos e deseja treiná-lo para ser tornar um Jedi, pois o menino tem todas as qualidades para isto. Seu nome é Anakin Skywalker, futuro pai de Luke Skywalker.

Ele passa então a ser treinado para isso e se desenvolve a tal ponto que é reconhecido como o futuro líder dos Jedi. Neste período de tempo Obi-Wan, aprendiz de Qui-Gon Jinn, é nomeado seu professor dos ensinamentos jedi, sendo que ambos foram destacados para proteger a senadora Padmé Amidala, que tem sua vida ameaçada por facções separatistas da República, que ameaçam desencadear uma guerra civil intergalática. Com o passar do tempo surge um romance proibido entre Anakin e Amidala, pois os cavaleiros jedi não têm permissão para se apaixonarem.

As Guerras eclodem e as diferenças entre o Conselho Jedi e o Chanceler Palpatine aumentam cada vez mais. Anakin Skywalker mantém um elo de lealdade com Palpatine, ao mesmo tempo em que luta para que seu casamento com Padmé Amidala não seja afetado por esta situação.

A condição de Jedi em Guerra nas Estrelas se assemelha ao percurso de preparação para tornar-se um verdadeiro herói, um nobre samurai ou um valoroso cavaleiro da Idade Média. E para isso é fundamental as qualidades da ética, da coragem e da integridade moral. É também equivalente ao conceito junguiano de individuação, em que um ser humano vive uma vida para enfim tornar-se um ser único e singular, integrando e contribuindo para o meio em que vive, sendo ao mesmo tempo absolutamente fiel a sua natureza intrínseca original.

A Vingança de Sith, dessa forma, apresenta um verdadeiro tratado de como o mal se constitui e coloca uma reflexão fundamental para os dias de hoje em que ele se instala de forma tão avassaladora.

Anakin Skywalker originalmente é bom e valoroso, mas em seus treinamentos e árduo aprendizado perde-se por sua vaidade e insubordinação. Não aceita a orientação e comando de seus mestres e no fundo se julga superior a eles, assumindo suas próprias e pouco sábias decisões. Em nome de um suposto amor por Palpatine, comete as piores atrocidades e coloca enfim o poder acima desse amor. Anakin se alia aos opositores do Conselho Jedi, colocando-os na clandestinidade e torna-se o ditador e temido Darth Vader.

Em nossa jornada heróica para tornarmo-nos indivíduos íntegros bem sucedidos precisamos de muita ajuda. No momento certo aparecem nossos mestres que por durante um bom tempo nos orientarão e a quem deveremos obediência e eterno respeito e gratidão. Eles nos ensinarão a disciplina e a humildade de sentimentos. E quando eles são verdadeiros mestres, chegará um tempo em que eles nos liberarão para que continuemos nosso caminho com outros mestres e aprendizados, pois nessa hora já não terão mais nada que nos ensinar.

A gênese do mal, mitológica e realisticamente, acontece quando os homens se envaidecem e se consideram superiores a tal ponto que não precisam se submeter a regras e limites externos, quando consideram que suas qualidades e valores já estão prontos e não precisam ser arduamente treinados e lapidados. Quando os limites dos pais, dos professores, dos chefes e da sociedade são insuportáveis, inaceitáveis.

A gênese do mal acontece quando os homens acham que não precisam de mestres e orientadores, como os bravos samurais, os heróis gregos, os cavaleiros da Távola Redonda.

É uma época de em que os heróis são os traficantes de drogas, as modelos publicitárias, em que se festeja a vitória de seu time destruindo os estabelecimentos comerciais da Avenida Paulista.

E assim, como Darth Vader, queimamos em lavas de vulcão, chegando ao máximo de degradação que um ser humano pode chegar para gestar o que pode haver de pior: o poder totalitário que tranquilamente passa por cima dos valores éticos e humanos e que tem como conseqüências a violência, as injustiças e desigualdades.

Fontes:

Internet: Guerra nas Estrelas

CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.

por Adélia Hill de Souza e Carlos Artur Aguena*

 

* Adélia Hill de Souza e psicóloga clínica (CRP: 14.312/6), psicoterapeuta junguiana e sistêmica (e-mail: adeliahill@uol.com.br)

* Carlos Artur Aguena e psicólogo clínico (CRP: 06/64106), especialização junguiana em andamento (e-mail: aguenaca@yahoo.com.br)

 

© copyright 2005-2012, palcoetv.com.br

Página Inicial | Grupo de Discussão | Blog |Contato

página principal palcoetv.BLOG fale conosco enviar