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X – Men 3 : Todos são diferentes?

Os criadores de X-Men, Stan Lee e Jack Kirby, trouxeram para o universo das histórias em quadrinhos em 1963 um tema cada vez mais grave na sociedade contemporânea: o preconceito e a intolerância contra as minorias. X-Men são seres humanos mutantes que devido a um gene-x, desenvolvem capacidades extraordinárias a partir da adolescência, como movimentações em uma velocidade astronômica, produção de elevadas e baixíssimas temperaturas, imitação física perfeita de outras pessoas, transposição de paredes ou locomoção de objetos pela força da mente.X-Men 3 E, em decorrência dessa característica que os tornam seres muito poderosos, são vítimas de intensa discriminação, metáfora explícita à rejeição social sofridas por minorias como a dos negros, latino-americanos, deficientes físicos, determinados grupos religiosos e culturais imigrantes e homossexuais.

Há mutantes que acreditam e defendem uma convivência pacífica e há mutantes que colocam na guerra a única saída plausível para esse conflito. O primeiro grupo tem como representante e líder o professor Charles Xavier que dirige uma escola para mutantes e o segundo grupo tem em Magneto a sua liderança.

Charles Xavier cuida de uma pupila com poderes muito além de seus parceiros chamada Jean Grey, que ressurge depois de ter supostamente morrido às margens de um lago. Jean Grey renasce muito mais desenvolvida e possuída pela Fênix Negra, sua segunda personalidade sombria que é capaz de destruir até mesmo quem ela ama. Xavier controla a mente de sua discípula, encapsulando a Fênix Negra através de seus poderes, como uma forma de protegê-la. Essa personalidade, porém, escapa-lhe do controle e causa danos astronômicos.

X-Men 3Warren Worthington II, industrial bilionário, descobre uma "cura" para essa mutação genética, capaz de anular os poderes extraordinários desses mutantes. Worthington buscou obstinadamente esse antídoto porque nunca conseguiu aceitar o fato de seu filho ser um mutante que tem asas e é capaz de voar. Alguns mutantes aceitam a idéia de perderem suas características diferenciadoras e encaram isso como algo libertador. A grande maioria, no entanto, não percebe sua natureza como algo que deve ser "curado" através de um antídoto e defende seus direitos de ser diferentes. Esse antídoto acaba se transformando em uma poderosa arma contra os mutantes.

O filme "X-Men: o confronto final", terceira adaptação para o cinema desse clássico das histórias em quadrinhos, se desenvolve a partir desses dois conflitos fundamentais: o antídoto que se torna um recurso bélico e deflagra uma guerra e os poderes destruidores de Jean Grey.

Há dois conceitos fundamentais na abordagem junguiana que aqui serão explicadas da maneira mais simples possível e que serão importantes elos para a compreensão de uma metafóra central que esse filme traz para os nossos tempos de imperialismo norte americano, de intolerâncias e desigualdades e de incompetências das minorias de esquerda.

O primeiro conceito é o de individuação, ou seja, a vocação inerente a todo ser humano em realizar a sua singularidade e originalidade, em se diferenciar da massa coletiva e de ser fiel a sua natureza que é única e distinta de outros seres humanos. A individuação exige muita coragem e muitas vezes implica em grandes perdas. Um alto executivo que constituiu uma carreira muito bem sucedida em uma empresa multinacional, ao ouvir o chamado de sua individuação, pode surpreendentemente pedir para ser demitido e com o dinheiro de seu fundo iniciar uma viagem para fotografar as reservas ecológicas brasileiras. Uma dona de casa entediada com seus afazeres domésticos pode abandonar suas obrigações de mãe de família e começar uma faculdade de administração de empresas para em um futuro muito próximo iniciar um empreendimento próprio. Para Jung é fundamental sermos fiéis aos nossos sonhos mais pessoais e nossa felicidade e auto-realização depende essencialmente disso.


X-Men 3

Os X-Men somos todos nós que temos alguma particularidade rejeitada pelos nossos grupos sociais. É a nossa sensibilidade ultrajada que aprecia filmes europeus ao invés de campeões de bilheteria cada vez mais realistas em suas cenas de violência, é o nosso gosto por coisas consideradas esquisitas, é o nosso andar manco ou desengonçado, são nossas gorduras localizadas ou nossa baixa estatura, são nossas etnias índia, latino americana e negra. E alguns de nós gostariam de um remédio eficiente que nos tornassem mais iguais a todos, como operações plásticas e lipoaspirações ou terapias que transformem nossas deficiências cognitivas em super competências. Outros de nós no entanto já percebem que há algo precioso nessas características singulares muitas vezes discriminadas. São nossas marcas pessoais que nos dão a nossa identidade única e expressam nossa condição humana imperfeita mas também maravilhosa. E devemos lutar por isso e defender nossa identidade contra qualquer forma de massificação. O mundo globalizado governado pela cultura norte americana que aparentemente valoriza a integração e cooperação na diversidade, na verdade oprime as diferenças e exclui economicamente os povos que não acompanharam esse processo, estes cada vez mais tragicamente miseráveis. São os governantes conservadores e amedrontados que aparecem no filme defendendo a hegemonia e o aniquilamento dos mutantes.

X-Men 3A resistência dos X-Men frente a essa força que luta pela destruição de seus poderes nos introduz ao segundo conceito junguiano: a sombra. Sombra é aquela parte rejeitada e não desenvolvida de nossa personalidade que, quando excluída e não expressa, reivindica seu lugar ao sol e pode causas grandes estragos. Um pastor puritano e muito dedicado a sua prática religiosa pode na alta madrugada estar clandestinamente frequentando casas de prostitutas. Uma empresária extremamente eficiente em suas negociações pode apresentar doenças em seu útero pela negação de seu desejo escondido pela maternidade, pois isso pode atrapalhar muito sua carreira bem sucedida. Manter aspectos nossos na sombra consomem muita energia e tiram nossa vitalidade, é como se vivessemos nossa vida pela metade. No caminho de nossa individuação necessitamos ser inteiros.

As esquerdas na América Latina, tradicionalmente defensoras das minorias, estão conquistando o poder em seus países e escancarando aspectos vergonhosamente sombrios de sua corrupção, intransigência e incompetência, muito particularmente no caso do Brasil com o governo Lula. Não há espaço aqui suficiente para descrever estes acontecimentos, mas basta abrir os jornais para se perceber isso. São aspectos sombrios mentirosamente negados, encapsulados como Xavier fez com a personalidade negra de Jean Grey que morreu sem ter chance de integrar sua sombra. E com isso a comunidade mutante também perdeu uma grande oportunidade de aprender como lidar e reger seus poderes, não permitindo que eles os dominem e os destruam, como uma sombra sempre faz quando não é devidamente reconhecida e respeitada.

X-Men, se é que essas metáforas foram corretamente compreendidas, tem um final prematuramente feliz.

X-Men 3

Referências:

Folha On Line. X-Men 3 promete dividir apaixonados em histórias em quadrinhos. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u60693.shtml

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 7.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (org.) Ao encontro da sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. São Paulo: Cultrix, 1991.

Por : Carlos Aguena - "Da equipe de redatores Palcoetv"
e-mail: aguenaca@yahoo.com.br

Carlos Artur Aguena e psicólogo clínico (CRP: 06/64106), especialização junguiana em andamento.

 

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