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 | ATENÇÃO : SPOILERS!!!
DEXTER: O SERIAL KILLER NO ARMÁRIO
Dexter e eu temos uma relação complexa. Eu o adoro, mas ele me dá medo.
Para quem não conhece, Dexter é uma série do canal de TV a cabo Showtime e que retornará com sua terceira temporada dia 28 de Setembro. A Showtime é conhecida por suas produções polêmicas e ousadas, e Dexter não é uma exceção.
Baseada no livro "Darkly Dreaming Dexter", a série conta a história de um serial killer cujo padrão de vítimas é... outros serial killers. Aparentemente seus conflitos psicológicos começaram, pois Dexter, quando bebê, participou de uma cena de crime hediondo. Lá ele viu sua mãe ser morta e foi resgatado pelo policial Harry, que o adotou. Harry, percebendo as tendências assassinas de Dexter resolveu ensiná-lo regras, para que este alimentasse seu desejo de sangue em vítimas que merecessem, e as quais o poder judiciário não consegue condenar. Esses "mandamentos do Harry" servem também para manter Dexter seguro.
A partir daí desenrola-se a grande ação da série: Dexter tentando não ser descoberto enquanto satisfaz sua necessidade.
Para um disfarce perfeito Dexter constrói uma postura de bom moço, com direito a namorada de fachada e um emprego como analista forense especialista em sangue, do Departamento de Polícia de Miami.
A série desde seu início, em 2006, mantém uma boa vida, mas sua repercussão aumentou quando o canal de TV aberta CBS, sofrendo com a paralisação causada pela greve dos roteiristas, comprou os direitos de exibição de Dexter para preencher sua grade. Infelizmente, a repercussão que recebeu estava mais para um protesto da Parents Television Council (Conselho de Pais para a Televisão), alegando que Dexter é uma série violenta e um mau exemplo.
Agora, voltando a questão do medo anteriormente citada, entendo a aflição dos senhores pais sobre determinado conteúdo. Mas, não há motivo para temer Dexter. Afinal, Dexter não é tão psicopata assim, e tem lá sua conduta moral.
Portanto, o medo a que eu me referia não diz respeito a contrariedade causada quando simpatizamos e até mesmo torcermos por assassinos em série, oposto a tudo o que acreditamos (e sempre nos foi ensinado).
Dexter realmente faz isso conosco, ele nos mostra uma perspectiva diferente e nos convence de que o policial correto é quem deveria morrer. Mas não é certo dizer que ele tenha o poder de converter nossa moral, ou de transportar tal filosofia para o mundo real. Em relação a Dexter nós nos tornamos flexíveis a suas atrocidades. Simplesmente porque é ele quem conta a história, ele apresenta motivos corretos e, portanto, ele é nosso amigo.
Mas no final do dia, o MEU "medo" é outro.
Vira e mexe levo um susto com os deslizes e decisões duvidosas desta série e tenho medo do que será dela. Não contesto aqui a qualidade da série, que apresenta bons roteiros, diálogos e personagens.
Faço apenas algumas observações sobre o desenvolvimento das primeira e segunda temporadas e explico porque, mais do que nunca, insisto em dizer que DEXTER PRECISA SAIR DO ARMÁRIO e assumir suas próprias regras, se quiser sobreviver.
A seguir:
O primeiro susto aconteceu no episódio "Seeing Red" (S01E10). Quando Dexter, tendo meio, motivo e oportunidade, simplesmente droga Paul (ex-marido de sua namorada) ao invés de matá-lo, eu confesso que comecei a balançar. Um serial killer teria matado, pois era algo que precisava ser feito. Ainda, o marido em questão era um criminoso, o que o enquadrava como uma possível vítima, levando em conta o perfil de vítimas do Dexter.
E aí, comecei a questionar até que ponto Dexter pode ser considerado, realmente, um assassino em série.
Falando em perfil de vítimas, por exemplo, está na cara que ‘um assassino só matar assassinos" serve para amenizar a questão do ‘hediondo’ e permitir que todos nós simpatizemos com ele. É por isso que ele é querido do público. Mas, olha só, o problema é que essa não foi uma decisão dele. Houve quem (nesse caso o pai) o orientasse e escolhesse para ele o tipo de vítima que ele deveria pegar. Dexter seguia o código, mas esse código não era dele. Não era ele. Até agora, ele segue regras que lhe foram estipuladas.
E é daí que vem a grande questão, existe uma grande diferença entre um serial killer de assassinos e um justiceiro. O pai queria que ele fosse um herói. Na verdade, ele é só um assassino e escolher suas próprias vítimas faz parte da brincadeira.
Isso apareceu muito claramente entre Dexter e seu irmão, durante a primeira temporada. O irmão dele era como aquela consciência do mal, que dizia, basicamente, "liberte-se! Eu aceito você como você é, e você deve se aceitar também". Era a materialização do que acontecia na cabeça de Dexter, sua contradição.
Foi um choque para mim quando ele, no episódio final da temporada 1, matou o irmão. Deixou essa impressão de que ele havia matado dentro dele a vontade de se libertar do código, de se assumir. Escolheu voltar a vida de sempre, ditada e encoberta.
Concluiu assim, Dexter, o justiceiro e defensor da cidade. Fiquei muito decepcionada, porque aquele não foi o Dexter que eu "comprei". Não era o Dexter do episódio piloto, que olhava um corpo esquartejado e falava "Que lindo! Por que é que eu não pensei nisso antes?". Aí está, ninguém assiste Dexter para ver um justiceiro, a gente assiste porque ele é louco! Melhor ainda se ele é um louco que só ataca gente louca. Tá tudo em casa.
Quando chegou a segunda temporada, pensei: ele tem que se assumir. Tem que contestar o código, criar o seu próprio e deixar de ser o herói que seu pai sonhou. Dexter precisa de uma identidade.
E o que se seguiu foi... quase isso. Na segunda temporada, Dexter passa a se conhecer melhor, conhecer seus limites e descobre que seu pai não é essa pessoa respeitável e perfeita que ele sempre acreditou. Isso faz com que ele conteste o código (aee!). Uma coisa que achei muito legal, foi o surgimento de uma amante também psicopata. Achei ótimo, porque sinceramente, o que é aquele namoro com a Rita? Vamos entender uma coisa, ela é uma namorada de fachada! Não faz sentido ele ter ciúme ou querer agradá-la, pelo simples fato de que ele só faz isso para mantê-la. Apesar de, muitas vezes, não ser isso que parece.
O legal da psicopata é que, a maneira deles, eles se entendiam. Mas, novamente, no episódio final da segunda temporada, Dexter mata a única pessoa que o aceita como ele é de verdade.
A conclusão que chego é esta: é engraçado como perto de Dexter todos os psicopatas parecem mais psicopatas que ele. Esse é um serial killer cheio de moralidade: "Eu sou um assassino, mas você...é louca e incendiária. Você deve morrer". Óbvio que ele ainda não se aceita, nem ao menos se enquadra na categoria dos psicopatas, porque todos os psicopatas para ele estão indo longe demais. Nenhum deles tem limites, como ele próprio. E é dever dele limpar a sujeira.
Então, a minha maior expectativa em relação a Dexter, ele se assumir, ainda não foi cumprida. Nem ao menos ele criou SEUS próprios limites, ou pelo menos ELE MESMO decidiu que serial killers são o seu "barato". Evidente que haja uma resistência, pois a partir do momento que ele desenvolver regras próprias, pode haver uma rejeição de público, a série pode ficar mais pesada, Dexter não será mais tão... cordial? Ele deve ser muito bom para nunca ser pego pela polícia e manter sua vida clandestina. Ao mesmo tempo, será que é um bom exemplo? Será que estamos desacreditando o poder policial? Ele é aceitável desta maneira?
Até agora, Dexter está matando psicopatas, provando a todos que ele é um psicopata do bem. Acontece que há a necessidade do crescimento e evolução do personagem, sem isso não há propósito. Sem sua própria identidade, vítimas e rituais, ele não é nada além de um discípulo de seu pai. O pessoal precisa aprender que, se você se propõe a fazer uma série com assunto polêmico, você não pode ter medo de causar polêmica!
Está chegando a terceira temporada. Ouvi dizer que a idéia desta nova temporada é Dexter "se encontrar". Vamos ver...
Por Marcela – da equipe de articulistas Palcoetv.
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