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 | "Private Practice" (2007) é uma spinoff (série derivada de outra série) de "Grey's Anatomy", e produzida pela também criadora Shonda Rhimes. Além disso, "Private" herdou também o canal de sua precursora: é transmitida pela ABC e, aqui no Brasil, pela Sony. Já possui duas temporadas completas e conseguiu a tão almejada (principalmente em tempos de crise) renovação.
Com essa ficha técnica, você poderia pensar que as diferenças entre as duas séries são poucas. Você não estaria totalmente errado. Afinal, vem da mesma leva, digo, inspiração.
Mas, "Private Practice" tenta uma nova roupagem procurando criar uma identidade própria, um tanto mais leve, do que "Grey's". Para isso, o ambiente de trabalho é realmente distinto, uma clínica particular em Los Angeles.
Será que isso foi suficiente para afastar comparações?
Coloco a sua disposição, a seguir, minhas considerações sobre "Private Practice":
Sobre Kate Walsh
Não vou me ater muito em observações sobre interpretação, pois minha especialidade mesmo está em roteiro. Portanto, peço desde já desculpas pela ignorância em termos gerais, e farei um comentário que não consigo conter!
É inegável que Kate Walsh, atriz principal, apresenta um trabalho infinitamente superior ao da protagonista de "Grey's Anatomy", Ellen Pompeo. Mas, arrisco dizer, isso não se deve apenas ao fato da personagem Allison ser mais interessante e bem resolvida do que Meredith, o que lhe garante, ao menos, mais simpatia. Acredito que Walsh é mais carismática, e pronto.
Lógico que pessoas mais maldosas podem até comentar o fato de Walsh ser casada com um executivo, co-presidente da 20th Century Fox, e confirmar que por esta razão a oportunidade lhe sorriu.
Mas a isso eu gostaria de completar o seguinte: Primeiro, uma fofoca, eles estão se separando.
E, segundo, uma observação, conquistar seu espaço pode não ter sido problema, mas manter-se é uma outra história. E Kate Walsh está agradando. Já a história de "Private Practice", assim como de "Grey's Anatomy", agradou a princípio e agora passa por momentos difíceis. Então, vamos ao roteiro.
Os romances acima de tudo
O grande chamariz de toda a primeira temporada é o romance entre Dra. Addison e Dr. Pete (Tim Daly). E, para isso eles souberam trabalhar a química entre o casal. Os dois são divertidos, são opostos e criam a tensão necessária para nos fazer acompanhar mais um, e mais um, e mais um episódio, na esperança de presenciar o momento em que finalmente fiquem juntos.
Sim, porque tirando a expectativa desses romances impossíveis, pouco resta. Mas pouco mesmo.
Afinal, profissionalmente todos eles são bem realizados, certo? São personagens que possuem vidas unilaterais, descomplicadas e, bem, vazias. Não tem problemas com a família, pelo menos nada que realmente interfira em sua rotina ou em sua condição psicológica. Nada referente ao passado deles realmente é falado. A não ser, claro, a morte da esposa de Pete, a grande barreira que justifica as idas e vindas recorrentes deste gênero da dramaturgia. Os outros comentam suas decepções, mas sinto uma superficialidade no que dizem que não me agrada.
Enfim, em todos os outros quesitos que constroem a vida de pessoas normais, eles estão perfeitamente bem. E o que lhes resta buscar, seu único conflito, então, refere-se à vida amorosa. Isso poderia ser interessante... E até é, por um certo tempo, e depois começa a tornar-se clichê.
Queria deixar uma coisa clara sobre minha opinião em comédias românticas: O problema não é falar de amor. Ao contrário, está aí um assunto que rende grandes histórias. A questão é que a maioria das histórias não apresenta uma trama madura, coerente e envolvente, e tornam tudo muito cansativo.
Não há nada de errado em torcer por casais, mas quanto tempo é possível durar esses conflitos, da forma que são apresentados?
"Private Practice" é assim para mim. Na primeira temporada, você torce. Na segunda, não sei se vou agüentar. Essa fórmula não funciona mais e não quero mais ser enrolada nesse vai-não-vai.
No momento em que alguém achar uma nova receita, onde a tensão, a química e a atração não se acabem, mesmo em um relacionamento estável, aí eu virarei fã. Isso é interessante de se ver, mesmo que seja só em ficção!
É claro que, ao direcionar-se a vida pessoal é possível criar uma ligação afetiva com o público mais facilmente. Mas, os personagens são interessantes o suficiente? Acho que não...
Personagens rasos e... me lembram alguém...
E está aí outra coisa que me incomoda. Não saber como esses personagens são realmente. Já que o foco da série não está na questão médica, e sim em questões pessoais, gostaria que houvesse mais situações para conhecê-los: suas manias, seus defeitos, maneiras de falar, gírias, sei lá... Informações que compõem pessoas. Mas, parecem todos passíveis de substituição a qualquer momento, pois não há aprofundamento.
Por exemplo, a Dra. Naomi Bennett (Audra McDonald) é mãe mesmo? Eu nunca a vejo sequer falando com a filha no telefone. Acredito que a menina só tenha aparecido em um episódio onde o enredo mostrava que a garota havia se tornado, ainda muito nova, sexualmente ativa. Foi uma questão bem dramática... Naquele episódio. Depois, todo mundo esqueceu e continuou na mesma. Então, pra que se dá ao trabalho de fazer um episódio inteiro sobre isso?
A única personagem que, apesar de ter uma personalidade meio chatinha, possuiu um trabalho interessante de histórico é a Dra. Violet Turner (Amy Brenneman).
A obsessão pelo ex-namorado era um assunto interessante. Diferente, pessoal e contraditório. Mas, foi feito para acabar rápido. Parece que isso já foi superado.
De qualquer forma, a maioria dos personagens me lembra algum personagem de "Grey's". O Dr. Cooper (Paul Adelstein) parece um George mais mulherengo. E a Dra. Charlotte (KaDee Strickland) lembra a Christina. O Pete seria o McDreamy da história e o Sam Bennett (Taye Diggs), o Dr. Burke.
Califórnia? Sério? Cadê a praia?
Bom, outra questão, a Califórnia em si, os costumes da cidade, as transformações e adaptações de uma Addison completamente sozinha em um novo mundo... Nada disso aparece. As próprias contradições que causariam a mudança do ambiente de trabalho foram pouca exploradas.
Essa é uma série médica??
Considerar "Private Practice" uma série médica pode ser duvidoso. Isso porque, normalmente, o cenário médico é aproveitado para tratar de vários assuntos relevantes e polêmicos, discutindo questões de interesse público.
Essa série consegue tirar ainda mais o foco da questão médica e transportá-lo para questões pessoais. É, portanto, uma série que poderia se passar em qualquer lugar de trabalho.
Essa falta de aprofundamento, de reconhecimento do ambiente e até, de ações, me incomoda. Parece que nunca está acontecendo nada.
Em "Private", essa iniciativa é feita em doses homeopáticas, sem piadinhas com o trabalho de Pete. O que é discutido lá também é discutido (ou já foi falado) em várias outras séries, na mesma situação. Ou seja, pouco acrescenta. As maneiras de abordar também não são muito criativas. Pelo menos, isso Grey's Anatomy faz, vez ou outra.
E a prática médica, em si, é minimizada pela rotina de uma clínica particular, quando, na verdade, essa seria uma grande chance de ter vários casos aprofundados e sendo tratados de forma mais específica, para conhecimento geral.
O que acontece é o oposto. Histórias fracas e desinteressantes apenas preenchem a lacuna da proposta "clínica" da série. Umas questões aqui e ali sobre temas polêmicos que prendem a atenção até cair em uma obviedade.
Não é necessário assistir um episódio até o final para descobrir como ele termina.
Então, em conclusão...
Poderia dizer que "Private Practice" é uma série que busca uma identidade própria, mas que "não cai longe da árvore". E espero, sinceramente, que encontrem uma fórmula mais eficaz para os romances que a conduzem. Este está com os dias contados.
Seria besteira esperar grandes mudanças no foco da série, porque não é essa a proposta, mas poderiam, pelo menos, criar uma "arc" mais interessante (quero dizer, mais interessante do que o "quase fechamento da clínica" que todo mundo já sabe que não vai fechar).
Mas, poderia ser pior. Apesar de ser derivada de outra, ela, pelo menos, não copia situações. Pois, vou dizer aqui o tamanho da minha surpresa ao assistir o piloto da série global "Nada fofa" e ver uma cena da personagem principal dançando nua no meio da sala, sem qualquer razão. Imediatamente lembrei do piloto onde Addison, ela sim dentro de um contexto, fazia o mesmo. Seria isso uma homenagem, então? É... De repente "Private" tenha conquistado mais fãs do que eu imaginava.
Por Marcela – da equipe de articulistas Palcoetv.
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