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Sonhei com Charles Chaplin
Sinopse

Esteve em cartaz no Teatro Alfa, pelos meses de julho e agosto, o espetáculo infantil "Sonhei com Charles Chaplin". Há tempos não assistia a uma montagem que me tocasse como esta. E por variados motivos. Fala, a peça, de uma situação que envolve muitos brasileiros nestes tempos de globalização, de desemprego, do tucanismo "estar disponível no mercado do trabalho". Tráz, também, ao imaginário do público, a nostalgia e encanto do cinema mudo. Mais particularmente evoca a inocência e a valorização de gestos simples e contundentes. Há ausência de diálogos verbalizados. O fio condutor é o teatro físico, em que Pamela Duncan, diretora, é mestra. Um Músico (vejam só quem, representante da cultura neste País) está desempregado. Com contas a pagar, compromissos a honrar, vê entrar pela sua porta, numa noite ou num dia, durante o sono ou na vigília, o próprio Vagabundo, que parte a acompanhá-lo ou a levá-lo por uma peregrinação a estabelecimentos comerciais, em busca de trabalho. Os tipos se multiplicam em lojas de sapato ou em ringues de luta livre. O Músico tenta fazer de tudo para defender o seu, tentando, inclusive, fazer o que nunca fez e, portanto, que nunca fará bem feito. Com o Anjo da Guarda trapalhão que o acompanha consegue, e quando, muita confusão. Seguem, num balé minuciosamente estudado, elaborado e ensaiado, as proezas ou as diabruras da dupla. Impressiona o trabalho corporal dos atores da companhia. Sincronia de movimentos e coreografia apresentadas no palco são rersultados de muito ensaio, o que pressupõe dedicação e profissionalismo extremos. O resultado para o espectador são momentos de lirismo e "simplicidade" comoventes. Aqui, gostaria de deixar claro, que simplicidade não significa carência, falta de imaginação e sim a exata quantidade de tudo num todo. Ser simples não é fácil. É, inclusive, muito complicado, hoje. As situações desconcertam... e as crianças participam. Alcançamos o que pode ser mais simples para o entendimento de uma criança? Nós, os adultos, por quantas vezes conseguimos uma verdadeira comunicação com os pequenos? Será que estamos abertos a esta conversa? Não deveríamos, depois de "crescidos", perder a capacidade de nos surpreender com gestos simples e com a simplicidade das coisas. Seguimos inventando motivos, criando teorias e cobrindo a crueza das nossas carências e a simplicidade de nossa necessidade maior: precisamos de amor; precisamos dar amor; precisamos aprender a receber amor. Não subestimemos a capacidade dos pequenos que não se moldaram totalmente à conduta social. E esta capacidade está anos luz ... dentro de nós mesmos. Fazer contato é o importante. O contato interior. Talvez, por isso, tenha procurado assistir a este espetáculo e lembrá-lo aqui, hoje. Como não poderia deixar de ser, em tudo há música e, nesta montagem, música, unida ao componente visual, é o passaporte do sentir, da emoção. Mais uma vez para os adultos, pois, as crianças riem até com um sapato caído na platéia, durante a "guerra" na sapataria.

por Anselmo Dias

 

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